quarta-feira, 6 de julho de 2011

Encontrando ordem no caos da turbulência

Esqueleto da turbulência
Encontrando ordem no caos da turbulência
Embora a turbulência seja um fenômeno que se caracteriza pela movimentação caótica das partículas de um fluido, existem técnicas capazes de identificar estruturas coerentes em seu interior, permitindo a previsão desses movimentos.
Dois novos estudos, liderados por pesquisadores brasileiros, identificaram as estruturas coerentes que formam o "esqueleto" da turbulência.
Segundo os autores, estudos sobre a dispersão de cinzas vulcânicas, ciclones, tornados, tsunamis, ciclos solares, formação de planetas e estrelas, o Universo primordial e outras áreas tão diversas como o transporte de sangue em sistema cardiovascular e a fusão termonuclear controlada poderão se beneficiar das duas pesquisas.
Os trabalhos foram liderados pelo físico espacial Abraham Chian, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e pelo matemático computacional Erico Rempel, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP), em cooperação com um colega da Universidade de Estocolmo (Suécia) e um aluno de doutorado do Inpe.
Lâminas de corrente
No primeiro estudo, os cientistas estudaram o campo magnético relacionado às estruturas coerentes da turbulência verificada no plasma solar.
De acordo com Chian, utilizando os dados fornecidos pelos instrumentos a bordo de quatro sondas espaciais da missão Cluster, o grupo detectou, em frente a uma nuvem magnética interplanetária, duas estruturas coerentes na forma denominada como "lâminas de corrente".
"A análise de dados de flutuações magnéticas na vizinhança dessas estruturas coerentes demonstrou que o vento solar exibe o comportamento de turbulência bem desenvolvida do tipo Kolmogorov, semelhante às turbulências encontradas na borda de uma máquina de plasma de fusão termonuclear, na atmosfera solar, no meio interestelar, em um túnel de vento e na copa da floresta amazônica, para citar alguns exemplos", disse Chian.
A caracterização da dinâmica da borda dianteira de uma nuvem magnética interplanetária é fundamental para o monitoramento e a previsão de clima espacial, uma vez que existem indícios de que a tempestade magnética na Terra pode ser iniciada pela chegada de uma nuvem magnética proveniente de uma erupção solar.
"Os eventos extremos na natureza, tais como ciclones, tsunamis, a precipitação excessiva de chuvas em regiões localizadas, manchas solares e ejeções de massas coronais interplanetárias estão relacionadas às estruturas coerentes que dominam a dinâmica da turbulência e podem causar grandes impactos no clima terrestre, clima espacial, e ambiente solar-terrestre", explicou.
Dínamo cósmico
No segundo estudo, o grupo investigou as estruturas coerentes lagrangianas da turbulência astrofísica, com base na simulação numérica de um modelo não-linear de dínamo.
"Esse modelo de dínamo pode explicar a origem e a evolução de ciclos solares, por exemplo, o aparecimento de períodos prolongados de atividades calmas do Sol conhecidos como os Grandes Mínimos", disse Chian.
As estruturas coerentes lagrangianas são linhas ou superfícies materiais que atuam como barreiras de transporte na turbulência. Inspirado pela teoria do caos, este conceito foi introduzido há quase dez anos por George Haller, atualmente professor de engenharia mecânica da Universidade de McGill, no Canadá.
"Essa nova técnica não-linear permite uma visualização mais acurada da dinâmica e estrutura complexa de fluidos, que não seria possível usando as técnicas tradicionais baseadas em formalismo euleriano", disse Chian.
Essas estruturas são determinadas por meio da computação do máximo expoente de Lyapunov de tempo finito, que fornece o valor médio da taxa máxima de divergência ou do alongamento entre as trajetórias das partículas num certo intervalo de tempo.
"Isso permite a identificação de trajetórias atrativas e repulsivas em imagens obtidas das simulações numéricas ou imagens reais do campo de velocidade de um fluido, revelando o esqueleto da turbulência que forma as barreiras para o transporte das partículas. Os cruzamentos entre essas barreiras são responsáveis pela mistura caótica de partículas", disse.
Encontrando ordem no caos da turbulência
Os cientistas usaram dados da missão Cluster, constituída por quatro sondas de pesquisas quase idênticas, voando em formação. [Imagem: ESA]
Coerência no caos
O estudo de estruturas coerentes lagrangianas, segundo os autores, tem aplicações em diversas áreas, por exemplo, a previsão do movimento dos poluentes na atmosfera e no mar, a migração dos fitoplânctons no oceano, o fluxo aperiódico em furacões, a interação entre o fluido e a estrutura entorno das válvulas cardíacas e o plasma termonuclear em máquinas de confinamento magnético.
De acordo com Rempel, o grupo brasileiro foi o primeiro a introduzir essa nova técnica para a astrofísica. Usando as imagens da turbulência de plasma simuladas para modelar a geração do campo magnético nas camadas convectivas do Sol e de outras estrelas, foi comprovado pelo estudo que as estruturas coerentes lagrangianas são capazes de distinguir nitidamente os detalhes da complexidade da distribuição espacial de barreiras de transporte entre dois regimes diferentes do dínamo.
"Desde que o conceito foi desenvolvido por Haller, a técnica foi aplicada para problemas de fluidos, tanto em simulações como em dados observacionais voltados para dispersão de poluentes nos oceanos, por exemplo, mas não havia ainda sido utilizadas, no campo da astrofísica, em fluidos com campo magnético", disse Rempel.
Essas estruturas coerentes marcam certas direções preferenciais das partículas de fluidos em movimento. Quando um poluente é arrastado pelos vórtices e correntes do oceano a identificação das estruturas coerentes permite detectar linhas de atração que possibilitam prever para onde o fluido irá se movimentar. O mesmo fenômeno pode acontecer, por exemplo, com as cinzas expelidas na atmosfera por um vulcão.
Caos na astrofísica
"No enfoque da astrofísica, nosso objetivo era saber qual o impacto do campo magnético sobre os movimentos turbulentos do plasma de uma estrela", disse Rempel, que coordenou o projeto Simulação numérica e análise de transição para turbulência em plasmas espaciais: uma abordagem baseada em sistemas dinâmicos, apoiado pela FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa - Regular.
Segundo ele, na camada convectiva do Sol, uma região intensamente turbulenta, as partículas se movimentam como se estivessem aprisionadas em vórtices. As estruturas coerentes lagrangianas marcam as fronteiras desses vórtices, delimitando as regiões do fluido entre as quais as partículas não se misturam.
"Quando fazemos o estudo das estruturas coerentes, vemos que algumas partículas podem se cruzar, passando para outras regiões do fluido. No caso da estrela, observamos que quando o campo magnético ficava mais forte, existiam menos cruzamentos - isto é, a turbulência diminuía", disse.
Esses resultados, segundo Rempel, foram obtidos a partir de uma simulação ainda bastante simplificada. "A partir desse modelo acadêmico, vamos agora procurar estender essa aplicação a modelos mais realistas da camada convectiva do Sol", disse.

Europa quer substituir carros por helicópteros pessoais

Europa quer substituir carros por helicópteros pessoais


Helicóptero pessoal
A Europa parece estar levando a sério a ideia de substituir carros por veículos voadores.
O primeiro anúncio oficial veio em 2010, com o lançamento do Projeto PPlane, destinado a elaborar o plano completo para um sistema de transporte aéreo pessoal, com vistas a diminuir os congestionamentos de automóveis nas grandes cidades.
Agora, o principal programa de financiamento de pesquisas europeu acaba de lançar o Projeto myCopter.
Estreitando o conceito de "veículo aéreo" a ser utilizado, o objetivo é desenvolver um helicóptero de uso pessoal.
Nova dimensão para os transportes
Os pesquisadores de cinco universidades europeias trabalharão sob a coordenação da Agência Espacial Alemã (DLR), tentando transformar em realidade algo que ainda parece ficção científica: "tornar o transporte de casa para o trabalho tão fácil quanto pegar um elevador."
"A infraestrutura rodoviária fica totalmente saturada nos horários de pico, e logo não será nem possível nem recomendável construir novas rodovias," afirma Heinrich Bülthoff, do Instituto Max Planck de Biologia Cibernética, na Alemanha. "A única solução é pensar fora da caixa, e adicionar uma terceira dimensão para a trajetória do viajante."
"Neste estágio, não estamos ainda projetando a própria aeronave," explica Felix Schill, da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça. "O que a Europa espera de nós nesta fase inicial é desenvolver tudo o que viabilizará a utilização em larga escala desse tipo de transporte."
Europa quer substituir carros por helicópteros pessoais
Leis de trânsito, sistemas de tráfego aéreo e formação de pilotos são outros problemas a serem enfrentados para viabilizar o transporte aéreo pessoal. [Imagem: MyCopter]
Transporte de problema
É difícil acreditar que os problemas de um tráfego de helicópteros pessoais não serão até maiores do que os congestionamentos de carros.
Estacionar helicópteros, por exemplo, não parece ser uma manobra mais simples ou que requeira menos espaço do que estacionar um carro.
Leis de trânsito, sistemas de tráfego aéreo e formação de pilotos são outros problemas a serem enfrentados.
"A segurança dos passageiros é obviamente uma das questões mais sensíveis," continua Schill. "Teremos que projetar sistemas extremamente seguros para evitar colisões."
Helicóptero elétrico
Mas os cientistas estão entusiasmados e já pensando realmente "fora da caixa".
As ideias vão desde as "aerovias" expressas até o voo em formação, em que os helicópteros voariam de forma automatizada na maior parte do tempo, e o uso de mini-radares, como os que estão sendo desenvolvidos para evitar a colisão de automóveis.
No quesito técnico, os pesquisadores estimam que um helicóptero elétrico com contra-rotores poderá cobrir até 20 quilômetros usando apenas suas baterias - mais do que a distância média de casa para o emprego da maioria dos trabalhadores.